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Exemplo de pai, avó e profissional

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Um pai herói nem sempre foi um filho tranquilo. Não raras vezes, é um garoto cheio de vitalidade e que necessita de um freio, como é o caso de Abílio Gonçalves, o barbeiro mais antigo do Ipiranga. “Eu era meio bagunceiro e, aos 13 anos, pra me tirar da rua, minha mãe me colocou aqui pra aprender o ofício”, lembra ele, referindo-se à barbearia no número 1734 da rua Bom Pastor, onde está há 77 anos.
Abílio teve como professores os barbeiros Milton e Messias, já falecidos. Aprendeu rápido a profissão e, oito anos depois, em 1950, já era dono do salão. “Naquele tempo, a gente não recebia por cabelo cortado ou barba feita, como ocorre hoje. Tínhamos um salário e o meu era de 800 réis por mês. Fiz economia e comprei a barbearia, pagando aos poucos”, ele recorda.
O Brasil ainda se recuperava dos traumas da II Grande Guerra (1939-1945) e, na época, o Ipiranga era um bairro com características interioranas. As ruas eram de terra batida, poucas ruas possuíam iluminação pública e prevaleciam os sítios e as chácaras. Foi nesse cenário que, em 1948, aos 19 anos, que Abílio se casou com Edir Virgílio Gonçalves. As filhas, Sueli e Neusa, não demoraram a chegar. “Eram tempos difíceis, o salário de barbeiro não era grande coisa, mas, graças a Deus, jamais passamos necessidade”, ele conta. “As meninas nos trouxeram muita alegria, que se estende até hoje”, observa.
Aos 90 anos, Abílio não pensa em se aposentar e demonstra boa memória ao lembrar nomes e idades de netos e bisnetos. Ele enumera os netos: Eduardo, de 46 anos; Andréia, de 42; Priscila, de 40; e Júnior, de 37. E os bisnetos: Gabriel (15), Luisa (14) e Heitor (2). Edir morreu há oito anos e o apartamento em que Abílio mora há oito anos, em frente à barbearia, agora é ocupado também por Sueli e o marido, Rafael. “Sempre fui um pai carinhoso, resolvia tudo na conversa, sem precisar dar um tapa nas minhas filhas”, define-se. “E elas também nunca me deram trabalho. Namoraram, casaram e, infelizmente, foram morar distantes do Ipiranga. Sueli foi para a Penha e Neusa para a Lapa”, ele relembra.
O sonho do barbeiro é ganhar na mega sena e, com o dinheiro, viajar bastante. “Eu só saí uma vez de São Paulo. Fui a Santa Catarina para um casamento e não pude aproveitar a viagem. Se ganhar na mega, vou conhecer todo o Brasil”, planeja.

Abílio e sua família

A única tristeza de Abílio relaciona-se à morte da mãe, a espanhola Maria Rosana dos Santos Gonçalves, quando ele tinha 14 anos. “Ela morreu muito nova, aos 35 anos”, comenta. “Devo o que sou a ela, já que, um ano antes, ela conseguiu pra mim um emprego na barbearia, fato que me incentivou a gostar do trabalho. Desde menino, sempre me virei, vendendo verduras e engraxando sapatos nos finais de semana, mas foi como barbeiro que formei uma família linda. Minhas filhas sempre foram a razão da minha vida e, depois, vieram os netos e os bisnetos”, diz ele.

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